terça-feira, 13 de outubro de 2020

Entendendo o Rateio do IPO DE AÇÕES


O que é Rateio da Oferta

O Rateio da Oferta é um conceito associado à Oferta Pública Inicial (IPO) de ações de uma empresa e ao bookbuilding, o processo para avaliação da demanda do mercado pelas ações.

O Rateio da Oferta é a solução encontrada para lidar com o excedente de demanda, ou seja, quando existe uma demanda para comprar mais ações do que a empresa efetivamente pretende emitir em seu IPO.



Como funciona o Rateio da Oferta

 

Antes do IPO, a empresa que pretende emitir ações realiza um processo chamado de bookbuilding, que permite entender a demanda do mercado e definir o preço para a oferta.

Porém, ele tem outra utilidade: possibilita aos investidores fazer uma reserva para a compra das ações. O bookbuilding é realizado tanto com investidores institucionais quanto investidores de varejo.

Ao final desse processo, a empresa observa qual foi o número de reservas. Eventualmente, pode haver reserva de um volume de ações superior ao que a empresa pretende colocar no mercado.

Quando isso acontece, é preciso fazer um rateio. Isso significa que cada investidor só vai poder comprar uma porcentagem das ações que reservou durante o Bookbuilding.

Métodos de Rateio da Oferta

Existem diferentes métodos para realizar o rateio da oferta.

O método tradicional consiste em fazer o rateio de acordo com a proporção entre o total da oferta e o total de reservas.

Imagine que a empresa fictícia ABC Metais vai fazer seu IPO com R$ 100 milhões em ações. O bookbuiding aponta um total de R$ 200 milhões em reservas. A relação, aqui, é de 50%. Portanto, cada investidor poderá comprar 50% do que reservou.

A crítica ao método tradicional de rateio da oferta é que os grandes prejudicados são os pequenos investidores. Afinal, seguindo esse método, quanto menor a reserva, menor a compra que o investidor efetivamente terá direito a fazer.

Em 2005, uma parceria entre técnicos da BOVESPA e a empresa Suzano Petroquímica deu origem a um novo método de rateio. A proposta era que as ações do IPO fossem distribuídas, uma por uma, a cada investidor que fez uma reserva, obedecendo o limite dessa reserva, até que as ações ofertadas acabassem.

Imagine que, no mesmo caso da ABC Metais, o bookbuilding de R$200 milhões corresponde às reservas de 4 investidores:

  • O investidor A reservou R$ 10 milhões
  • O investidor B reservou R$ 40 milhões
  • O investidor C reservou R$ 50 milhões
  • O investidor D reservou R$ 100 milhões

Vamos pegar o equivalente a R$ 100 milhões em ações, que é o IPO, e começar a distribuir uma por uma pelos quatro investidores (uma ação para o investidor A, uma para o investidor B, uma para o investidor C, uma para o investidor D, outra para A, outra para B, e assim sucessivamente) até o limite que cada um reservou.

Então, quando o investidor A chegar ao equivalente a R$10 milhões em ações, ele sai do rateio, porque foi isso que ele reservou. O rateio continua entre os outros três, até acabarem os papeis ou até que chegue no limite da reserva de outro investidor. Nesse caso, continua entre os que sobraram. O resultado final será:

  • O investidor A poderá comprar R$ 10 milhões
  • O investidor B poderá comprar R$ 30 milhões
  • O investidor C poderá comprar R$ 30 milhões
  • O investidor D poderá comprar R$ 30 milhões

Perceba que os investidores que reservaram menos (A e B) conseguiriam comprar uma proporção maior da sua reserva. A conseguiria comprar 100% do que reservou, mas D apenas 30%.

Esse método beneficia os menores investidores. Quanto menor a reserva, maior a probabilidade de receber todas as ações reservadas. Por outro lado, quanto maior a reserva, menor a porcentagem que efetivamente poderá ser comprada.

Casos reais de Rateio da Oferta

Um caso real interessante de rateio da oferta foi o IPO da Visanet, em 2009. Ele foi considerado o maior IPO da História do mercado brasileiro, até aquele ponto.

As ações da empresa geraram um interesse tão grande entre investidores do varejo, que cada um só conseguiu comprar 38,35% do valor reservado. Isso significa que a demanda foi quase 3x maior do que a oferta.

Mais recentemente, o caso do IPO da Vivara também merece atenção. A empresa usou uma estratégia diferente para o seu rateio da oferta.

A demanda pelas ações da Vivara superou a oferta em 5x. Com a intenção de incentivar a adesão dos investidores a uma cláusula de Lock-up, a Vivara ofereceu preferência no rateio para aqueles que aceitassem a cláusula.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

A diferença entre investidores e especuladores

 Nos últimos meses, em razão de vários fatores – entre eles a pandemia da Covid-19 e a queda da taxa Selic –, temos percebido um forte aumento no número de pessoas físicas na bolsa.

No último boletim divulgado pela B3, referente ao mês de setembro, mais de 3 milhões de CPFs estavam na bolsa de valores. Esse valor é quase o dobro do 1,68 milhão que havia no fim do ano passado e seis vezes maior que os 500 mil de 2017.

O fato é que, desses 3 milhões atuais, uma parcela é de investidores; outra, de especuladores. No livro Margin of Safety, do grande investidor Seth Klarman, o autor aponta que o primeiro passo para alcançar o sucesso nos investimentos é entender a diferença entre essas duas categorias.

Nesse sentido, os investidores seriam aqueles que acreditam que as ações são uma fração de uma companhia, um “pedaço do negócio”, enquanto os títulos representariam empréstimos a essas empresas. Dessa maneira, investidores tomam decisões de compra e venda de ações com base no preço em que a companhia é negociada em comparação com sua percepção de valor dela.

Além disso, os investidores compram ações quando acreditam que elas podem oferecer um retorno razoável a partir de certo risco incorrido – e as vendem quando o risco não vale mais a pena.

Uma característica muito importante dos investidores é acreditar que, no longo prazo, o preço das ações tende a refletir o desempenho, nos aspectos fundamentais, das companhias. Ou seja, a performance de receitas, lucros e rentabilidade ditaria o preço das ações da empresa.

Do outro lado, temos os especuladores. Ao contrário dos investidores, eles pautam sua decisão na previsão de queda ou subida no preço das ações com base no comportamento do mercado. Por isso, segundo Klarman, os especuladores detêm ações como um mero pedaço de papel que pode ser trocado, sendo indiferentes aos aspectos fundamentais do investimento.

Dessa forma, os especuladores são obcecados por previsões da direção do preço das ações, de modo que muitos deles recorrem à análise técnica, que utiliza as flutuações passadas da ação como guia.

De acordo com Klarman, a análise técnica pressupõe que a performance passada das ações indicará a chave para o futuro de seus preços. Mas a verdade é que não podemos prever o futuro: o autor ainda é enfático ao afirmar que “tentar fazer uma previsão é perda de tempo”.

Muitas vezes, é bastante difícil identificar investidores e especuladores sem fazer uma análise profunda de seu comportamento. Não é raro encontrar muitos “investidores profissionais” que performam como especuladores, obtendo retornos de curto prazo com base na previsão das flutuações do mercado.

Portanto, os investidores têm uma chance razoável de atingir o sucesso no longo prazo, ao passo que os especuladores, por outro lado, têm maior propensão de perder dinheiro ao longo do tempo